Filosofia da Legião, Renato Russo [Povão]

10 10 2007

Renato Manfredini Jr. (1960-1996) ficou famoso como cantor e compositor utilizando o nome artístico de Renato Russo. Juntamente com Marcelo Bonfá (bateria), Dado Villa-Lobos (guitarra ) e Renato Rocha (baixista, que deixou a banda em 1988) formou a Legião Urbana, a banda de maior sucesso artístico e comercial do rock brasileiro.

Renato escolheu o sobrenome Russo como forma de homenagear os filósofos Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russel, assim como, o pintor francês Henry Rousseau. Com o pensador francês Rousseau, Russo compartilhava uma desconfiança quanto à idéia de progresso e uma valorização profunda dos sentimentos. Em verdade, referências a filósofos, escritores e cineastas podem ser encontradas em toda obra da Legião Urbana. No primeiro trabalho do grupo, o álbum Legião Urbana de 1984, que apareceu logo depois de reprovada no congresso a medida que propunha eleições diretas para presidente, já podemos encontrar desconfiança quanto ao progresso da técnica, numa visão filosófica que combina a descrença no futuro dos punks (no future ) com a busca romântica por alguma Utopia.

No refrão da música Petróleo do Futuro encontramos referência a filosofia:

filósofos suicidas
agricultores famintos
desaparecendo
embaixo dos arquivos

A afirmação da existência de ?filósofos suicidas? e de ?agricultores famintos? funcionam como antíteses, figura de linguagem que age unindo idéias que seriam opostas, apontando assim para uma contradição (como o próprio nome diz anti-tese ). Se é contraditório, quando sabemos que a atividade do agricultor é produzir alimentos, falarmos em agricultores famintos, deve ser também assim quando falamos em filósofos suicidas, donde depreendemos que a atividade do filósofo é oposta a do suicida. A filosofia se ligaria à vida, à valorização da vida.

Qual seria a origem da contradição que a música aponta?

Aristóteles dizia que a filosofia começa pelo espanto. O que nos espantaria hoje? Provavelmente as contradições que acontecem em nosso dia-a-dia. Perceber algo para o qual não temos explicação, perceber que as respostas que recebemos prontas muitas vezes são falhas, perceber nossa finitude… Quando não temos esse espanto, nos deixamos simplesmente levar pelo que é comumente aceito, deixamos de buscar qualquer resposta.
Nossa sociedade não prima por querer esse tipo de espanto. As contradições da realidade tendem a ser encobertas, a ?desaparecer embaixo dos arquivos?, como apenas números em estatísticas. A regra pede que esqueçamos tais teoremas e não nos espantemos.

A letra de Petróleo do Futuro começa assim:

Ah, se eu soubesse lhe dizer
o que eu sonhei ontem à noite
você ia querer me dizer
tudo sobre o seu sonho também
e o que é que eu tenho a ver com isso?

Os versos marcam bem a distância que cotidianamente vai separando as pessoas de seus próprios sentimentos e da comunicação desses. Se uma pessoa abre para outra os segredos de seus sonhos o que garante que a outra pessoa teria essa mesma disposição para contar/ouvir? Assim, cresce a indiferença e as pessoas se afastam cada vez mais um das outras: ?e o que é que eu tenho a ver com isso?? (verso repetido várias vezes na letra).
A solução talvez estivesse em se encaixar em uma tribo, onde as pessoas se identificassem e pudessem ser sinceras. Mas, onde existem essas tribos? Seria um devaneio:

Ah, se eu soubesse lhe dizer
o que fazer p?ra todo mundo ficar junto
todo mundo já estava a muito tempo
e o que é que eu tenho a ver com isso?

É claro o teorema, porém, não se desvenda solução. Ninguém toma posição e todos aceitam as coisas como são impostas:

sou brasileiro errado
vivendo em separado
contando os vencidos
de todos os lados.

O individualismo se impõe: a regra é a indiferença e esse é o Petróleo do Futuro.

Como vencer essa distância que cada vez mais afasta as pessoas de uma verdadeira amizade? Como pensar nosso país? Como buscar sentido para nossa vida? Essas questões movem toda a obra da Legião Urbana

fonte: Overblogs.

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2 03 2015
Regiane

Renato é um gênio!

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